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Inteligência tem tamanho?

Quanto maior o cérebro, maior a inteligência?


"Meu principal interesse é a diversidade dos cérebros e o que ela nos ensina a respeito de como a vida evoluiu. Por isso, se uma criatura tem cérebro, estou interessada. É o que diz o adesivo preto na porta do meu pequeno laboratório: Got brains? [tem cérebro aí?]" Suzana Herculano-Houzel


É interessante que a gente faça esta associação de volume do cérebro com a potência da inteligência de um animal. Mas, segundo as pesquisas de uma das maiores neurocientistas brasileiras, esta associação está equivocada.

Suzana Herculano-Houzel

Suzana Herculano-Houzel é uma neurocientista brasileira conhecida mundialmente por seus estudos na área de Neuroanatomia Comparada. Em um dos seus mais famosos trabalhos, ela e sua equipe descobriram que o tamanho do cérebro não se relaciona somente com a quantidade de neurônios que ele possui, mas também com a quantidade relativa de outras células presentes no encéfalo.




Densidade de neurônios


Pense bem, o que pesa mais? 1kg de chumbo ou 1kg de penas? Esta pegadinha vale também para o raciocínio sobre a evolução do cérebro. O que importa, na verdade, é que a gente perceba que o volume de uma massa encefálica pode ser muito grande, mas ele pode corresponder em grande parte a outros tipos celulares e não a um número elevado de neurônios. No cérebro, existem muitas células diferentes que dão suporte aos neurônios e até mesmo se comunicam com eles. Estas células chamadas de neuroglia também ocupam espaço no cérebro e vão se somar ao volume ocupado pelos neurônios na conta final do tamanho do cérebro de um animal.



Ilustração com dois tipos de células comuns no cérebro: neurônios piramidais estão em verde; dois subtipos de neuroglia são os astrócitos (vermelho) e microglia (azul). Os astrócitos dão suporte e nutrição aos neurônios. Já a microglia atua como célula de defesa imunitária.



O que, então, importa? Importa que você possua um cérebro que tenha muitos neurônios, mesmo que eles ocupem um volume pequeno e seu cérebro não seja muito grande. No nosso caso, temos uma taxa de neurônios muito elevada em relação ao tamanho do nosso cérebro, e estes neurônios estão localizados em regiões específicas que fazem toda a diferença.


Quantidade de neurônios em áreas integrativas do cérebro


Esta descoberta significa que ao longo da evolução, nosso cérebro humano (primata) se diferenciou do cérebro de outros mamíferos devido ao aumento do número de neurônios em áreas importantes para o processamento de informações complexas (áreas associativas corticais), e não devido ao aumento de volume total. Por exemplo, nós possuímos um córtex pré-frontal muito desenvolvido em relação a outras espécies. Esta área é responsável pelo raciocínio lógico, pelo planejamento e antecipação de eventos. Outras áreas que são muito desenvolvida em nós são os centros da linguagem. Os outros animais também possuem áreas similares às nossas, mas em nós elas apresentam uma população mais densa de neurônios.


Outro exemplo é o bulbo olfatório de roedores e cães. Nestes animais, a olfação é muito mais desenvolvida que a nossa, portanto, seus centros nervosos que lidam com as informações desta natureza apresentam maior desenvolvimento que o nosso, já que nosso sentido principal é a visão.


Suzana e sua equipe também estudaram como as pressões naturais levam à modificação estrutural do cérebro em várias espécies ao longo da evolução, revelando os segredos por trás da diversidade neurobiológica que conhecemos.


Este é um exemplo de como boas perguntas nos movem para frente e abrem portas que nos permitem explorar as estruturas da realidade à qual pertencemos.



 

Referência: Herculano-Houzel, Suzana. A vantagem humana: Como nosso cérebro se tornou superpoderoso, 2017

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